Recentemente, as temperaturas que se têm feito sentir por todo Portugal parecem saídas de um caloroso mês de Junho, o que leva a uma inundação de praias por parte de banhistas, um aumento no consumo de imperiais bem frescas… enfim, há inúmeros rituais praticados quando o sol paira bem alto no céu. Para estes dias, há quem fale da existência de determinadas bandas que têm temas que mais parecem ter sido delineados com o propósito único de serem ouvidos nesta época específica, como se de mão dada andassem. É neste grupo que os Woods, banda folk norte-americana, se inserem.

20170408 - Woods @ Musicbox Lisboa

É difícil não ficar impressionado com os números que os Woods acatam consigo: são mais de doze anos de carreira de onde nove discos fluíram – diz-se que o décimo ainda irá desabrochar este ano. Mesmo com uma longevidade considerável, os americanos apenas tocaram por Portugal em duas ocasiões – no Reverence Valada, em 2014 e no Vodafone Paredes de Coura no ano seguinte – o que fez de sábado passado a estreia da banda pela capital. De forma a celebrar a ocasião, o MusicBox reuniu um aglomerado de adolescentes, jovens e adultos que tornava complicada a tarefa de se movimentar dentro da sala, tal era a enchente que se verificava ainda antes do concerto começar.

Quando os cinco americanos entraram em palco – já lá vão os tempos em que se faziam acompanhar por Kevin Morby – o calor que se sentia no MusicBox era asfixiante, mas mal os primeiros acordes de “Leaves Like Glass” são soltos, um autêntico maremoto de frescura inundou toda a sala, refrescando todos aqueles cujos corpos estavam prestes a entrar em ebulição devida às temperaturas que por ali pairavam. Quando foi dito que os Woods são um dos artistas de eleição para quem procura conforto em dias quentes, era a isto que nos referíamos: a banda tem uma capacidade estrondosa em conceber músicas que resultam como um sedativo apaziguador e relaxante, entrando por dentro do organismo do ser humano e que, ao dissolver-se, lança todo um leque de mensageiros que tranquilizam o ouvinte. Para deixar o público neste estado, Jeremy Earl acompanhou o seu timbre deliciosamente melancólico por uma guitarra acústica de forma a seduzir a plateia com alguns dos registos mais folk de Woods, alternando para uma elétrica pouco depois para um dos singles de serviço do mais recente City Sun Eater In The River Of Light, “Sun City Creeps”, onde a faceta mais psicadélica da banda dá o ar de sua graça.

20170408 - Woods @ Musicbox Lisboa

De facto, este último disco e With Light And With Love, de 2014, foram os grandes focos do concerto, com cada um a ser representado por cinco temas, embora tenha-se ouvido um pouco de álbuns passados através de “Suffering Season” (At Echo Lake), “Be All Be Easy” (Sun And Shade) e “Cali In A Cup” (Bend Beyond). A escolha destes três temas pode justificar-se por irem em conta com o registo mais folk-psicadélico com que os Woods se têm inclinado mais nestes anos recentes, mas sem esquecer como estamos perante uma banda tão eficiente que conseguiu colocar a sua “nova” essência nestas três lembranças de tempos passados de forma a não permitir que ficassem desenquadrados.

Um dos grandes pontos que funcionou a favor dos Woods e do seu concerto que rondou a hora e um quarto de duração, foi a capacidade da banda em saber alter momentos mais acústicos para os ‘mexidos’, nunca ficando aquela sensação de repetição no ar nem tanto uma de fora de contexto. Outra das suas benesses, acontecia quando tanto Jeremy Earl e Jarvis Taveniere empunhavam guitarra elétrica em mão e aventuravam-se em longos mas agradáveis sessão de improvisos onde, em alguns casos, chegavam mesmo a servir de pontos de ligação entre canções como foram os exemplos de “Shepherd” e “New Light”. Quiçá se estas novas “experiências” não serviram como um ‘cheirinho’ do que o décimo disco de originais trará…

20170408 - Woods @ Musicbox Lisboa

Perto do final do concerto, houve uma das poucas interações entre a banda e o público, com Jarvis a proferir que “este é o nosso último concerto da tournée e não poderíamos ficar mais satisfeito do que terminá-la em Lisboa. Nós vamos ficar por cá uns dias, portanto se tiverem sugestões de sítios a visitar, digam… mas não gritem todos ao mesmo tempo”, gracejou antes de o concerto encerrar ao som de “With Light and With Love”. Naturalmente, o MusicBox exigia um encore onde “Moving To The Left” e a inevitável “Can’t See It All” encerram o concerto com distinção.

No dia seguinte, Lisboa continuou a registar temperaturas altíssimas para a época em questão – custa a acreditar que ainda estamos no início da Primavera – mas, para aqueles que marcaram presença, na noite anterior, no concerto de Woods de certeza que passaram o dia com uma temperatura corporal refrescante e positiva, como se de um perfume se tratasse, perfume este que, graças a um concerto que conciliou momentos apaziguadores com outros mais intensos e ligeiramente frenéticos, aguentará até ao mês de Setembro e durante todo o Verão que, aparentemente, teima que quer aparecer mais cedo.

 

Texto – Nuno Fernandes
Fotografia – Luis Andrade