Cinco anos depois da estreia com Animal, os OSSO VAIDOSO, de Ana Deus e Alexandre Soares, regressam com Miopia, onde o que conta são os sentimentos.

Música em DX (MDX) – O que esteve na base da escolha dos poemas que constam no Miopia?

Ana Deus (AD) – Sentimentos. Senti que ficavam bem uns com os outros. Senti que os conseguia cantar. Senti que eram inspiradores para mim e para quem os fosse ouvir. Que combinavam… e que se foram juntando.

MDX – Há alguma temática em comum entre eles?

AD – A crença na vida, a descrença na vida, as incertezas, as dúvidas, a dificuldade em entender as coisas que vão acontecendo, tentando arranjar justificações para a vida. São tudo coisas à volta dos sentidos para a vida que nós arranjamos. Alguns também falam de Deus.

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MDX – Qual é a vossa estratégia de trabalho, começam pela escolha dos poemas e depois improvisam em cima deles ou trabalham primeiro a parte musical e só depois escolhem as palavras que melhor se enquadram na melodia e no ambiente criado pela música?

Alexandre Soares (AS) – Nós trabalhamos as duas coisas ao mesmo tempo. Ela começa a trabalhar os poemas, que lhe interessa trabalhar, e eu começo a trabalhar o som, e há um momento em que as coisas cruzam. Tu achas que aquele poema entra no que estamos a fazer e eu depois moldo em relação ao que estou a ouvir… e as coisas encontram-se. É um trabalho constante e é nessa constância que vai acontecendo isso.

AD – Puxando a cassete para trás, nem consigo ver o momento em que cada música nasceu.

MDX – A Ana Deus escreve dois poemas para o Miopia. Podemos esperar algo mais em relação a esta sua faceta de poetisa?

AD – Não, de todo. Escrevi duas letras. Uma a tentar que coabitasse bem com as outras, ou pelo menos com algumas delas, que é o “Princípio da Incerteza”. O “Dramo-me” foi uma coisa mais espontânea. Eram umas coisas que eu já tinha escrito… e lá vai. Eu gostava da palavra dramo-me – além do significado e de falar de mim e de nós músicos – e andava com aquela coisa do drama, como quando ficamos com um som à volta na cabeça e temos de fazer qualquer coisa com aquilo.

MDX – Depois da apresentação do novo álbum em Lisboa e Porto, haverá mais concertos nos próximos tempos?

AS – Nós temos agora Viana do Castelo este sábado [17 de dezembro]. Não temos mais nada marcado para agora. Temos para o ano algumas coisas, a Casa da Música em fevereiro, lá no Porto.

MDX – E serão concertos numa lógica de grandes auditórios ou mais intimistas?

AS – Não será a lógica de grandes auditórios. Mas se tiver que acontecer tudo bem, também é sinal que está lá gente (risos). Queremos sítios que nos digam alguma coisa e que as pessoas também achem que nós temos a ver com eles.

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MDX – Consideram que o facto de os discos terem deixado de ser a principal fonte de rendimento para a indústria musical, fez com que houvesse uma maior liberdade em termos criativos? Acham que o projeto Osso Vaidoso vai ao encontro dessa ideia?

AS – Nós nunca tivemos grandes problemas. Estávamos nas editoras e fazíamos o que queríamos. Tínhamos grandes pegas lá dentro, até expulsões. Fazíamos o que tínhamos a fazer.

AD – Mas tínhamos que fazer um single (risos).

AS – Mas agora a coisa desmaterializou-se. O controlo das editoras também desapareceu. Quanto ao viver, os discos davam alguma coisa, mas os espetáculos sempre foram a grande fonte de rendimento.

AD – É mais o processo estar próximo. Estarmos a gravar no sítio onde ensaiamos e não prepararmos tudo para ir para um estúdio… frio e que não conhecemos.

AS – Se fosse no tempo das editoras, talvez eles dissessem assim: ok, fizeram um disco em setembro, mas agora só sairá em junho. Mais isso. Agora, controlo artístico, zero, nunca houve.

AS – Não havia controlo estético, mas havia essa estranheza de estar no estúdio… e eu insisto nela. Eu gosto de estar no nosso sítio a gravar. À medida que vamos fazendo, vamos gravando. Isso influência muito. Agora, nos estúdios tínhamos horas marcadas, tínhamos x horas e depois tínhamos de ir embora… e depois vinha o técnico.

MDX – Podemos até dizer que voltámos ao punk e ao do it yourself. No vosso caso também é um pouco isso?

AS – Nós sempre tivemos um bocado isso. Agora é mais evidente, porque a edição é de autor. Antes, no tempo dos Três Tristes Tigres, mesmo quando íamos para um estúdio grande, que até era bom, levávamos as maquinetas todas e fazíamos o final ali. Mas sempre gravámos em casa, sempre… estou a falar nos tempos dos Tigres, em que já fazíamos isso em casa.

AD – Eu gosto de estar mais próxima do processo.

AS – Entre o tempo em que tu fazes as coisas e o tempo em que as pessoas depois as ouvem, a proximidade é muito maior. Não há ali um controlo de: as pessoas não querem isto ou talvez querem isto. Não há essa discussão, que era muito destrutiva no universo dos músicos. As pessoas faziam as coisas e depois tinham que ficar à espera. Isso interferia muito no processo e realmente acabou, morreu.

MDX – O Osso Vaidoso dá uma enorme importância à palavra. A partir dessa realidade, o que vos parece a atribuição do Prémio Nobel da Literatura ao Bob Dylan?

AD – Eu nunca liguei muito aos nobéis, mas…

AS – Eu não ligo muito aos nobéis, mas gosto muito de Bob Dylan, da primeira fase dele. Não era a minha geração, era a geração seguinte, dos meus irmãos mais velhos. Mas para mim foi uma fonte, como o Hendrix… e poucos mais foram. O Dylan para mim é central, essa primeira fase dele. Gosto que tenha sido reconhecido. E é bom estas coisas se furarem… este é o setor em que não sei quê e este não sei quê, e de repente afinal não é. E isso é bom, independentemente até de ter sido ele.

MDX – O Alexandre Soares foi essencial na fundação e no sucesso dos GNR nos anos 80. Alguns anos depois, a Ana Deus participou no projeto BAN. Ambos encontraram-se pela primeira vez nos Três Tristes Tigres, projeto que marcou os anos 90. Agora, reencontram-se no Osso Vaidoso. Como enquadram cada um destes projetos na realidade musical portuguesa da respetiva época?

AD – Ai o passado?! Os GNR para mim foram muito importantes.

AS – Para mim, [a banda GNR] foi o início da ideia que eu tinha de princípio de me profissionalizar logo, desde muito cedo. Tive essa sorte. Quando encontrei o Vitor Rua e formámos o grupo, ele tinha a mesma intenção. Eu estava na faculdade, mas além de ser um péssimo aluno não estava ali no sítio certo. E estava a tentar arrancar de outra maneira e seria através da música. Os GNR foi a minha porta. Depois, a partir daí não tinha de olhar para trás. Foi a porta que se abriu para aquilo que eu queria fazer. Foi muito importante e foram os primeiros anos de composição, de evolução… em termos ligado ao rock, que é uma coisa que me diz muito respeito.

AD – Eu gostei muito. Quando ouvi a primeira vez GNR na rádio, para já nem sabia que eram portugueses, e misturavam Juanita com…

AS – Era o “Hardcore [1º Escalão]”.

AD – Para mim, era miúda e surpreendeu-me. Foram muito importantes e acho que o Rui [Reininho] escreve maravilhosamente bem… até ao Companhias das Índias [álbum a solo do vocalista dos GNR], que não gostando muito musicalmente gosto muito das letras. Acho que ele é um extraordinário escritor de canções. Os BAN, para mim, principalmente o primeiro disco, foi uma experiência muito boa, porque praticamente fui diretamente para o estúdio, vinda do nada, assim metida num estúdio da Valentim de Carvalho dos bons e dos grandes. Muitas das coisas foram feitas lá… assim meio de improviso, segundas vozes. Uma coisa muito fresca, muito feliz. Esse disco vale pelos outros todos. Depois, o começar a cantar poemas foi um bocadinho com a relação com a Regina Guimarães e foi aí que eu comecei mesmo a dar importância àquilo que estava a dizer, apesar de não serem minhas as palavras. Mas pensar também naquilo que estás a cantar e não estares só a cantar. E um dia é uma coisa e outro dia é outra e as coisas mexem. Para mim, os Tigres tiveram essa importância.

AS – E musicalmente foi uma parte em que desenvolvi a composição, ligada ao timbre e à procura do som que eu ouvia e que tinha dentro da cabeça e que queria mesmo expor. Os discos demoravam bastante tempo a fazer. Eu gostei muito do grupo e foi uma época em que me senti bem a trabalhar. Era um grupo que dava muito trabalho, os Osso Vaidoso também dão, mas somos só dois e é mais rápido. Aquilo [os Três Tristes Tigres] era o som, aquele som e depois era outro som. E não era tipo uma coisa de base de dados, era mesmo a procura de coisas para aquilo também fazer sentido no final… e acho que fazia. Foi uma fase que eu gostei.

MDX – Voltando à questão da palavra, e o estarmos num mundo em que qualquer eleição ou referendo nos surpreende, consideram que ela poderá ganhar agora uma nova força como voz de protesto?

AD – Há duas coisas que são justificáveis. Nós tanto podemos falar da realidade e ser críticos, mas também podemos fugir dela por estar a enjoar. Essa necessidade de fuga também existe. Neste Miopia estamos um bocadinho: não estamos aqui. Estamos um bocadinho mais fora do território. As duas coisas acontecem e eu já cantei músicas muito mais interventivas e gosto, mas neste momento senti a necessidade de fugir.

AS – Eu acho que isso é igualmente interventivo, o querer alargar o leque. Eu sinto a necessidade de alargamento e não de me pôr a repetir coisas que já são ditas de outra forma. Tipo, eu vou pegar nas coisas que são ditas num comício e meter-lhe um acorde.

MDX – Em termos musicais, têm algumas referências que transportaram para este projeto?

AD – Conscientemente não.

AS – Conscientemente não, também. Eu nunca trabalhei, embora adore música e ainda oiça montes de música… mas não oiço música para fazer música. São outras coisas, às vezes é ao contrário. Quando começo a trabalhar, um gajo fecha um bocado.

MDX – E agora, vamos voltar a estar 5 anos à espera por um novo disco dos Osso Vaidoso?

AD – Não… não temos tempo agora com esta idade.

AS – Temos de ser mais rápidos. E temos umas coisas do Cesariny que também estão muito adiantadas e que vão aparecer.

AD – Sim, entretanto estivemos a fazer outras coisas… que ainda não foram editadas.

Depois dos concertos de apresentação em Lisboa e Porto, a dupla prepara-se agora para levar o novo espectáculo a 17 de Dezembro nos antigos Paços do Concelho em Viana do Castelo.

Entrevista – João Catarino
Fotografia – Osso Vaidoso