Festejava-se o 10º Aniversário do Musicbox e os IKOPONGO eram os anfitriões da noite. O público era diverso, mas a diáspora Angolana disse presente à chamada feita por MCK e Luaty Beirão.

Sabemos que uma noite tem tudo para resultar quando apenas a presença da banda, ainda antes de proferir quaisquer palavras, é suficiente para provocar uma pequena avalanche de aplausos. MCKMestre de Cerimónias Katrogui – é um dos Rappers e músicos de intervenção mais reconhecidos e importantes de Angola, enquanto Luaty Beirão, conhecido nestes meandros como Ikonoklasta, que recebeu uma enorme atenção mediática com a sua greve de fome, possui algumas das letras mais massivamente reproduzidas naquele país.

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A Morte do Artista, música de Luaty, eleito para tema de abertura do concerto, mostrou-nos o que já sabíamos: poucos ficariam ilesos às rimas arremessadas em várias direções. Todos repetem as letras, mas MCK demostrava uma mestria incomum em segurar e equilibrar as músicas. Ambos sempre superiormente coadjuvados pelo Dj Nelasson. O público, e não apenas o Angolano, sabe aquela letra ao pormenor, parecendo muitas vezes que a luta é partilhada, que os dois povos batalham de mãos dadas pela mesma causa.

Agradecem a presença a uma sala muito preenchida, à Amnistia Internacional, e relatam os 20 anos de amizade, lutas e valores que os unem. Luta essa que está patente em Entre a Espada e a Parede, assim como os valores em Professora da Vida, tema dedicado às suas progenitoras. Se o concerto começava a aquecer com o cover de How Many Mics, tema dos The Fugees, foi com a dedicatória a Arsénio Sebastião Cherokee, morto unicamente por entoar uma música de MCK, que a sala começou a fervilhar.

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“Isto é a minha nota de suicídio aos meus pais, amo-vos muito, desculpem, mas não aguento mais”, excerto da letra de Kamikaze Angolano, foi um tsunami emotivo ao qual pouquíssimos conseguiram ficar indiferente. No entanto, foi quando se ouviram os primeiros acordes de No País do Pai Banana que o concerto atingiu o seu ponto de ebulição. Todos repetiram o refrão entusiasticamente, todos levantaram o dedo, e todos pareciam sentir as dores Angolanas. Luaty afirma que o país que cantam não é este onde se encontram e pede aplausos para MCK, o futuro Presidente de Angola, brinca.

Inspirado em Eu Queria Morar Numa Favela de Gabriel o Pensador, o duo Angolano prossegue com Eu Queria Morar em Talatona, música que por baixo de um refrão catchy exibe as precárias condições de vida, a dicotomia entre ricos e pobres e os sonhos desfeitos de uma juventude frustrada. Nós e os Outros, uma das músicas mais populares de Luaty, foi o último tema antes do encore, onde oferecem aos presentes mais dois temas. Foi, no entanto, assinalável o facto de convidarem os presentes a subir a palco para improvisarem, criando um momento inesperado e intenso.

Numa noite em que a música e o ativismo entraram no Musicbox de mãos dadas, ninguém ficou indiferente à obstinação de Luaty e ao talento e competência de MCK. Foi uma noite especial para a diáspora Angolana que teve possibilidade de participar numa batalha que normalmente apenas segue à distância. Após o concerto, o duo desceu do palco e socializou com os presentes, tirando fotos, autografando, distribuindo humildade e mostrando que a luta continua.

A noite continuou com os discos de Rui Miguel Abreu e com a música com África dentro dos Irmãos Makossa, encarregues de encerrar as festividades.

Texto – Tiago Pinho
Fotografia – Ana Pereira
Evento – X Aniversário Musicbox Lisboa