Há cabeças que nunca param de pensar, ou melhor, de produzir ideias. Algumas pessoas são incapazes de aproveitar esse manancial de ideias, guardando-as para si ou perdendo-as para sempre. Outras têm a sagacidade ou, vá, o pragmatismo em saber passá-las do estádio mental para o material, conseguem criar algo a partir de um lampejo. Esta necessidade febril de produção assume forma em todas as áreas da experiência humana, mas quando ocorre no campo artístico, manifesta-se numa torrente criativa que, não raras vezes, é extremamente proveitosa. Não o conhecendo pessoalmente, arriscaria dizer que Bruno Pernadas sofre desta condição do criador compulsivo. Para nosso deleite, o músico lisboeta apresentou dois álbuns no Teatro Maria Matos, nos dias 13 e 20, resultando em duas distintas experiências proporcionadas pela mesma mente profícua.

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A primeira data serviu para revelar “Those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them”, projecto que prossegue a busca do primeiro LP de conjurar canções a partir de uma profusão de géneros e aproximações à música. A segunda foi utilizada para “Worst Summer Ever”, álbum que revela um lado mais ortodoxo de Pernadas, tendo sido essencialmente um concerto de jazz com toda a formalidade que isso implica. Sendo bastante diferentes, os dois projectos ainda assim não são dicotómicos, até porque facilmente conseguimos traçar pontos de intersecção entre estas duas personas de Pernadas. Ao passo que nalguns dos seus temas de Those who throw… encontram-se estruturas e mudanças de tempo que denunciam o seu ADN de Jazz, por outro lado podemos constar ao vivo que nas composições de Worst Summer Ever, o músico transporta consigo uma luminosidade e uma ligeireza que já lhe reconhecemos na faceta pop.

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Para quem já conhecia “How can we be joyful in a world full of knowledge”, quer em CD quer ao vivo, a apresentação deste segundo álbum foi como retornar a esse mundo da plasticidade pop pela via do ecletismo. Blues, Folk, Funk, Afrobeat, Prog, Soul, Pop americana já velhinha e World Music de diferentes quadrantes do globo, tudo serve para dar corpo aos seus temas, para ser um arranjo que brota a meio de uma música e nos apanha em contrapé. Desde a introdução em coro acapella de um trecho de Blue Hawaii até à solene Lachrymose, foi uma verdadeira viagem sem sair do lugar, um mundo de cores adensado pelo espectáculo de luzes caleidoscópico que pairava sobre o grupo. Spaceway 70 começa com um simples riff de Pernadas, seguido pelas participações irrequietas de flauta e saxofone, pelas investidas espaciais do sintetizador e pelas belas vozes entrelaçadas de Francisca Cortesão, Afonso Cabral e Margarida Campelo, tudo isto suportado pela solidez rítmica do baixo e da bateria. A forma como tantos elementos se encadeiam em harmonia é desarmante, tanto aqui como na magnífica sequência de Problem 6 e Valley in the Ocean. Contudo, o apogeu desta primeira noite ocorreria com a intensidade da jam psicadélica que tomou conta da metade final de Ya Ya Breathe e a malha de Prog tropical que foi Galaxy, injectada com doses saudáveis de Funk e sensibilidades de uma Big Band.

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Já na segunda noite, a sala transmutou-se com a presença de uma plateia amovível mais alta e a cortar metade da sala. Sob luzes bastante mais austeras, Bruno Pernadas apresentou-se com Francisco Brito no contrabaixo e David Pires na bateria. O trio lançou-se numa declaração de intenções em This is not a Folk Song, justamente o tema mais despido do álbum e com maior destaque da guitarra de Pernadas, desencontrada com os restantes instrumentos durante grande parte da canção para no fim desembocarem num balanço conjunto. O ritmo do concerto foi sendo marcado com a vinda paulatina de músicos para o palco, primeiro com João Mortágua a emprestar alguma elegância sorumbática a Granado Wire com o seu saxofone (tema aliás que termina numa toada quase rock), depois com Sérgio Rodrigues a adicionar textura com pinceladas de piano em Love vs Love, música onde Pernadas demonstra também o seu lado mais exploratório com a utilização de samples e efeitos na guitarra.

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De seguida dar-se-ia uma permuta de saxofonistas, com a vinda de Desidério Lázaro a assinar uma performance intensa na tensional September 4th (aonde o piano também toma um papel preponderante). Do 8 ao 80, Waltz retornaria o formato trio, mas Worst Summer Ever trataria de trazer todos os membros para palco, sendo que neste tema e na quase dançável Before its too late, os diálogos entre os saxofones assumiriam maior preponderância. O concerto entraria depois num extenso encore iniciado por solos de saxofone e de bateria e que viu todo o conjunto numa belíssima composição pôr um término em beleza a esta noite.

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Recuperando a ideia do primeiro parágrafo, há cabeças que nunca param de pensar. Bruno Pernadas revelou numa entrevista de promoção aos dois espectáculos que ambos os álbuns resultaram de uma série de canções por trabalhar e que tem muito mais material por utilizar em lançamentos futuros. Aguardamos ansiosamente pelos resultados.

Texto – António Moura dos Santos
Fotografia – Vera Marmelo | EGEAC