Lamentos, faltas de vontade e expectativas baixas. A grande maioria das pessoas que tinham um bilhete para no dia 7 de Maio entrarem no recinto do Passeio Marítimo de Algés estava insegura. A chuva que se fez sentir ao longo do dia, incansável e constante, certamente que não ajudou ao desânimo.

Estas pessoas, que ainda assim saíram de casa, não esperavam pela noite que iriam ter. Não esperavam que o sol brilhasse durante as últimas horas do dia, que a chuva não voltasse mais, nem que o sentimento que iria acompanhá-las no regresso a casa fosse de felicidade e completude.

Por entre o recinto, cornos luminosos, pessoas vestidas de Angus Young, dorsais e crachás espalhavam-se e provavam que até os fãs mais cépticos estavam curiosos para ver o que iria acontecer naquele palco e não iam virar as costas à sua banda.

A abertura do palco cabia aos americanos Tyler Bryant & The Shakedown. Na sua primeira vez em terras lusas, e apesar da chuva parecer não parar, recebeu-os um recinto já bem composto. O seu rock’n’blues foi uma boa escolha para dar as boas vindas ao sol e ganhar um novo alento para o que viria seguir.

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Cerca das 21h15 os ecrãs inundam-se de imagens do espaço, meteoritos a dirigir-se à terra, bandeiras australianas e explosões acompanhadas por riffs da “Back in Black”. O espectáculo iria iniciar e os AC/DC davam arranque à digressão Rock or Bust.

Apesar de todos os receios possíveis, logo na primeira música – “Rock or Bust” – Axl Rose conquistou o público. Sem precisar de se esforçar para ter o timbre de Brian, a voz de Axl enquadrava-se em tudo naquela banda. Os agudos, o arrastamento, as tonalidades, a garra e a postura. Sabíamos que não era o Brian, sabíamos que era o Axl e também sabíamos que isso deixou de ter importância desde aquele momento.

Os 61 anos de Angus só se fazem notar na sua aparência. A energia e ritmo com que toca são incansáveis. Dum lado para o outro, com o seu galope característico, não perde uma nota ou um riff. Deitado no chão ou de joelhos de guitarra em punho dá alma à banda e vai buscar a essência mais especial e diabólica que existe nos AC/DC.

Lá atrás, Cliff Williams não deixa de ter um papel fundamental com a sua voz grave e densa a quebrar os agudos de Axl ao mesmo tempo que iguala o baixo à sua voz e nos aconchega. Assim como Chris Slade e o seu compasso fundamental para o seguimento e desenrolar de todo o concerto. Em cima daquele palco respirava-se sabedoria e transpirava-se mestria e é apenas isto o necessário para um bom concerto. O excesso de aparatos visuais só serve para distrair e não para apreciar. Apesar da enormidade do palco e de alguns adereços, a aposta daqueles sábios homens foi em dar um concerto inédito. E foi o que aconteceu!

Passados quase 13 anos tocaram novamente a “Rock’n’roll Damnation”; na “Hells Bells” desceu um sino gigante do tecto; em “Sin City” vê-se Angus a tocar guitarra com a gravata e em “Whole Lotta Rosie” aparece a Rosie insuflável atrás deles. O público manteve-se energético e frenético durante o concerto inteiro mas as maiores explosões sentiram-se em faixas como “Back in Black”, “Got Some Rock & Roll Thunder”, “Thunderstruck”, “Hells Bells” e “You Shook Me All Night Long”. Na última faixa – “Let There Be Rock” – Angus presenteia-nos com um solo das mais variadas cores e formas e termina deitado no chão entre confetis e dedos mágicos, como só ele tem.

O encore traria apenas mais três faixas, começando logo com “Highway To Hell”, seguindo-se de “Riff Raff” e “For Those About To Rock (We Salute You)” onde pudemos ver três canhões a explodir e lançar fumo.

É difícil substituir um vocalista, mais difícil é numa banda reconhecida e anciã. A opção de parar seria fácil. No entanto, apesar de tudo, a escolha que tiveram foi a melhor de todas. Axl superou as expectativas e manteve-se à altura da banda e do momento. Não posso garantir que o mesmo fosse acontecer se ele não tivesse incapacitado. Quem o conhece de outras estradas, sabe o que ele é quando esta no seu melhor estado físico e talvez esta cadeira tenha ajudado a tornar este concerto ainda mais mágico. Por vezes, ter baixas expectativas é algo bom, a surpresa é muito maior e melhor quando algo corre bem. Posso acrescentar que foi o que me aconteceu naquele sábado, o oposto do que aconteceu no Estádio de Alvalade há uns anos atrás. No fundo, ficámos todos a ganhar neste dia e por todo o recinto, não se ouvia uma única palavra de insatisfação. Sê bem-vindo Axl e parabéns aos AC/DC pela escolha e por tudo o que são.

Como ponto negativo da noite, a hora de espera para entrar no recinto e o longo desvio obrigatório no final do concerto.

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Texto – Eliana Berto
Fotografia – Alexandre Antunes | Everything is New