O facto de uma organização compor e estruturar um cartaz de maneira inteligente é algo que se deve referir e congratular. A segunda noite da segunda edição do festival psicadélico de Lisboa estava prestes a começar e as surpresas esperavam-nos. Grandes, por sinal.

O alinhamento, composto de forma ascendente por horas e entre os dias, trazia-nos neste segundo dia, para aperitivo, os Twin Transistors. Ansiosos por mostrar o seu longa-duração Sun Of Wolves, a sair no dia 6 de Maio, preencheram os corpos presentes de perplexidade e satisfação. Um som consistente e uma voz grave e cheia de certezas saiam pelas colunas e revelavam a grandeza da banda que estava diante de nós. O que se poderia esperar de três guitarras, um baixo, teclas e bateria? Em meia hora, ouvimos “Francesa”, “Sun Of Wolves” e “All In”, entre outras, e ficámos com vontade de ouvir muito mais.

Logo de seguida, ainda em português, vinha Alek Rein acompanhado por Guilherme Canhão no baixo e Luís Barros na bateria. Começaram inicialmente por assustar a plateia com um desalinhamento e descoordenação que ninguém percebeu se era um soundcheck ou apenas um aquecimento. Depois do susto seguiu-se o trabalho em grupo e a melodia trabalhada. As distorções eram a palavra de ordem e a voz apresentava-se ligeiramente fraca para o estilo de música tocado, no ar pairava a falta de um poder qualquer que revitalizasse a atmosfera e o som. As faixas, a cada início, despertavam curiosidades e expectativas, perdendo-se depois por caminhos incertos. Talvez este tenha sido o concerto mais fraco da noite.

Em cima do palco construía-se um verdadeiro cenário hippie que remetia de imediato para os anos 60. Automaticamente, demos por nós envoltos num abraço de música envolvente e penetrante. O som dos You Said Strange, puramente psicadélico com acentos de shoegaze, era revelado por entre as distorções de cordas e de voz, pela guitarra de 12 cordas e pelo teclado tocado sabiamente. Entrámos numa viagem composta de alucinações e cores diversas com um caminho que se perdia por entre o cenário e as projecções que o compunham. Ali estávamos confortáveis e satisfeitos e, ao que parece, eles também.

Com um cheiro a incenso pelo ar e um vestuário a condizer, o duo alemão TAU veio para invocar xamãs e deuses. Guitarra acústica, pedais, bombo, djembe, maracas e instrumentos de sopro partilhavam uma comunhão excêntrica e empurravam-nos para o meio de tribos e florestas iluminadas. Descrevem a sua música como psicadelismo transcendente e, na verdade, não podiam estar mais certos. O psicadelismo é denso e digno do primeiro Woodstock, podendo até guiar-nos a algum tipo de transe confortável. Os dois elementos têm uma grande bagagem musical e não se esperaria outra coisa.

Para nos trazer de volta a terra, os irlandeses The Altered Hours, tentaram a hipnose e os mantos sombrios. Uma actuação que nos permitia levitar por entre a suavidade do instrumental e nos mostrou outras vertentes de shoegaze, post punk e psicadelismo. Diante de nós, uma dicotomia que tanto remetia para a introspecção como para a completude e satisfação, guiadas pelas duas vozes existentes: uma masculina explosiva e uma feminina apaziguadora. Entre o alinhamento, “Who’s Saving Who”, “Open Wide”, “Hey! No Way” e “Dig Early” fizeram as delicias e embalaram o público, já completamente submerso em toda a aura existente naquela sala.

Para finalizar a segunda noite e o festival, os GNOD e o seu aparato instrumental que mal cabia no palco. Aparato delicioso, por sinal, que nos deu um forte abanão e criou explosões sonoras do princípio ao fim do concerto. Seis pessoas em palco e duas baterias fazem a diferença e a mestria instrumental releva-se e denota-se a cada nota musical. O som, pesado, cru, electrizante e algo perturbador traduzia-se numa amálgama de géneros musicais como o rock experimental, industrial, kraut e algum psicadelismo subtil. Eram concebidas camadas de atmosferas densas e carregadas de poder. Alguns minutos de olhos fechados e criavam-se confusões mentais e caminhos esquizofrénicos ofuscados pela adrenalina e uma espécie de energia inexplicável. Sem dúvida que, quem esperou, agradeceu cada segundo daquela hora. A banda trouxe o mais recente trabalho – Mirrors – para apresentar e certamente que ficou mais que aprovado.

O festival terminou da melhor maneira possível e a organização está de parabéns. É bom ter festivais com esta qualidade e esperemos que o rumo assim continue. De ressalvar apenas a falta de pontualidade, que atrasou todos os concertos e levou ao arrastamento do término de cada dia e ao forte cansaço para quem foi pontual.

Texto – Eliana Berto
Fotografia – Nuno Cruz
Evento – Lisbon Psych Fest 2016
Promotor – Killer Mathilda