Os Keep Razors Sharp são mais uma das bandas que fazem parte do cartaz do Indie Music Fest’15 e, como tal, o Música em DX decidiu saber mais sobre estes rapazes que se deram a conhecer no final do ano de 2013. Estivemos à conversa com o vocalista e guitarrista Luis Raimundo e o baterista Carlos BB em pleno coração de Lisboa e descobrimos um pouco mais sobre o percurso e aspirações da banda.

Música em DX (MDX) – Como decidiram criar esta superbanda?

Carlos BB (BB) – Somos um grupo de amigos que, por acaso, resolveu fazer música em conjunto e que tem outras bandas e outros projetos em paralelo, mas não nos consideramos uma superbanda. A imprensa e quem está focado nessas coisas é que resolveu apelidar-nos disso, nós não nos consideramos uma superbanda, consideramo-nos um grupo de 4 amigos que, para além de fazer música, tem outros gostos em comum. Foram 4 pessoas que tinham espaço, que tinham bandas, que tinham tempo para além das bandas e queriam experimentar coisas novas com pessoas novas. Surgiu a oportunidade, surgiu a sala de ensaios, as ideias e pronto. Há uma coisa engraçada, é que para mim nem sequer existem superbandas em Portugal, existiram superprojectos, coisas que não tiveram continuidade. Às vezes perguntam-nos se isto é para continuar ou não. Isto é mais que para continuar, isto não é um projeto, é uma banda. Embora seja um hobbie, é um hobbie muito a sério, é vivido muito intensamente e não vai morrer por aqui porque continuamos a ter vontade de estarmos juntos, de fazer música nova e de experimentar coisas novas e isso é o que alimenta qualquer banda.

20150826 - Entrevista - Keep Razors Sharp

Luis Raimundo (Rai) – Foi uma coisa que surgiu mesmo por acaso. O Afonso e o Bráulio vieram viver para Lisboa e eu fui o cicerone durante alguns meses, passámos muito tempo juntos e o Braulio é que se lembrou e lançou o reto, foi do género “nós tocamos instrumentos, porque é que não nos juntamos na sala de ensaios?” e assim foi, convidámos o BB e está feito. A questão da superbanda é um elogio mas acho que é um rótulo muito fácil de colocar quando existem músicos que têm outras bandas de que as pessoas gostam ou se identificam, mas nós nunca nos sentimos uma superbanda nem nada que se pareça. Há uma coisa curiosa que, provavelmente, é a espinha dorsal da banda que é o respeito. Tem tanto peso dentro da banda como a amizade, há um carinho e um respeito muito grandes entre as 4 pessoas da banda seja às 4 da manhã ou em palco ou em qualquer altura. Acho que é esse o sucesso. Às vezes músicos que já vêm de outras bandas vêm com alguns vícios mas isso não se notou, há um respeito grande, qualquer pessoa opina, qualquer pessoa diz que gosta disto ou daquilo, não há aquele choque de egos, isso não existe.

MDX – Não se querem prender a estilos. Como definem a vossa música?

BB – Acho que nós somos uma banda de rock: guitarras, bateria, vozes… Chamem o que quiserem, a nós não nos compete dizer aquilo que fazemos. A nós compete-nos fazer música.

Rai – A não ser que andes à procura de um rótulo, é muito difícil um músico catalogar a sua própria música, a não ser duma forma geral, que é rock. Curiosamente em relação ao som não ficou nada definido em Razers. Por exemplo em Poppers só uso um pedal para afinar a guitarra durante o concerto e no primeiro ensaio de Razers levei alguns pedais emprestados que eram aqueles mais óbvios: deelays, reverts, ect.,o Afonso levou alguns pedais que também não costuma usar e o som ficou moldado a partir daí. Começou a soar bem e ficou.

MDX – Numa entrevista ao Público dizem que conseguem passar despercebidos. É isso que querem?

Rai – Acho que essa resposta vem em seguimento da questão da superbanda e o Afonso respondeu que se temos algum poder é o poder da invisibilidade porque foi na altura em que só tínhamos uma canção, não sabíamos sequer se íamos gravar álbum. Se fazes uma banda e lanças um álbum é claro que não queres passar despercebido, queremos que a música chegue onde tenha de chegar.

MDX – Porquê uma cover de Killie Minoge?

Rai – A Antena 3 lançou-nos um convite para um especial de fim de ano. Eram 20 bandas e cada banda tinha de escolher um single que tivesse aparecido nos últimos 20 anos, que tenha sido forte e que tivesse tocado na Antena 3 e mandaram-nos uma lista interminável de bandas, desde brit pop ao hip hop. Na minha cabeça pensei que se fosse para fazer uma cover devíamos fazer da coisa menos evidente possível, ou seja uma mulher a cantar e da coisa mais pop possível, algo que não tenha nada a ver connosco e ficou Killie Minogue.

MDX – Qual é a vossa opinião sobre a indústria da música em Portugal?

BB – Cada vez mais as bandas têm que ter mão nelas próprias, porque se uma pessoa está dependente de uma máquina ou de uma indústria, ela só por si não te vai salvar a vida, não te vai fazer chegar muito mais longe do que se calhar não tentasses. Tem de haver cada vez menos intermediários, acho que é bom o artista ter mão na sua carreira ao contrário de antigamente. A evolução e principalmente a internet têm influência: é normal que quando lances ou estás para lançar um disco ele apareça na internet. Isso tem coisas boas e más, para quem está à espera de vender discos isso é um problema mas por outro lado faz com que a tua música chegue a mais lados, é um pau de 2 bicos. Eu pessoalmente não quero enriquecer com a música, apesar de ser músico profissional, quero fazer a música que gosto e quero que a minha música chegue ao maior número possível de pessoas.

Rai – Mas as editoras não têm muito para onde ir porque o income de uma editora vem dos discos que se vendem e a venda dos discos tem vindo a baixar desde os anos 90, portanto é natural que as editoras agora tentem arranjar forma de subsistir de outras maneiras, editam artistas, fazem agenciamento dos artistas e tentam ir por outros lados para tentar sobreviver. Podemos comparar as editoras aos partidos políticos, ou seja, existem pessoas que te prometem tudo e não fazem nada e depois existem as outras que se calhar não te prometem tanto mas fazem muito. Acho que o segredo das editoras hoje em dia vai estar sempre por detrás das pessoas: as pessoas que gerem e até onde querem ir e é claro que elas tentam apanhar dinheiro porque agora não se vendem milhares de discos, agora uma banda que passa nas rádios não vende tanto como há 15 anos atrás. Mas, no fim de contas, o sucesso não tem a ver com a editora, mas sim com a banda.

20150826 - Entrevista - Keep Razors Sharp

MDX – Qual é a sensação de andarem a percorrer tantos festivais desde o ano passado? Preferem festival ou sala?

BB – A sensação é ótima. Depende muito do concerto e do festival e, principalmente, depende muito do público, que é aquele fator que a banda não consegue controlar e o que torna os concertos mais aliciantes ou não. É lógico que eu gosto de tocar para um número enorme de pessoas mas eu também tenho de conseguir gostar de tocar para um número pequeno de pessoas, tenho de conseguir dar o mesmo concerto. Há ali pessoas que querem mesmo ver a banda e não as posso desiludir. Eu sou suspeito porque gosto de palcos pequenos apesar de nos festivais as pessoas estarem com uma mood completamente diferente, estão felizes e a maior parte das vezes já estão de férias. São coisas diferentes, mas boas.

Rai – Tocares num festival é importante porque há muita gente que não te conhece nem sabe quem és e depois passa, fica e gosta. Aconteceu no ano passado no Super Bock, Super Rock e no Nós Alive por exemplo, as pessoas vinham ter connosco quando já estávamos a ver outros concertos e diziam que não conheciam e que tinha sido muito bom e isso não acontece num concerto pequeno. Por outro lado, numa sala estão as pessoas que te querem ver, que não vão lá por engano. Ninguém paga para ver uma banda só porque ouviu falar, algumas vão por curiosidade porque ouviram o disco, mas já vão com intenção. Além disso, a comunhão que há entre nós tanto faz sentido numa sala a gravar, como numa sala de ensaios, como num palco grande ou num palco pequeno. O prazer que nós tiramos dos concertos e de estarmos juntos a fazer música é praticamente o mesmo, não existe aquela coisa de “no palco é que esta banda faz sentido”, não! Esta banda faz sentido quando estão os 4 juntos, seja onde for.

MDX – Qual é a vossa opinião sobre o conceito do Indie Music Fest?

Rai – São precisos festivais destes em Portugal. Há um feito que eles fazem que é conseguirem criar um festival onde as pessoas paguem bilhete e se desloquem ao recinto, mostrando que é possível fazer um festival com pessoas e com bandas que não são de milhões de euros. O Indie é isso mesmo, o mérito maior que tem é conseguir criar mobilidade à volta dele. É algo bonito. É um festival com bandas em que acreditam, não é de imagem ou nome e pelos vistos tem corrido bem. É preciso ter coragem para criar um festival destes, porque é um festival que não tem apoios e corre um grande risco.

BB – É um bocadinho no caminho do que faz o Bons Sons mas numa escala mais pequena e mais alternativa. É muito gratificante para nós enquanto pessoas e enquanto banda estar a acompanhar e a participar no crescimento de festivais pequenos que apoiam bandas pequenas (eu acho que nós somos uma banda pequena). É um prazer para nós estar a fazer parte de projetos que estão a dar passos de bebé, são os passos que para eles são possíveis, porque não têm grandes marcas atrás. Não têm nada disso mas começam a ter grandes bandas portuguesas, que são bandas pequeninas como nós mas que já são grandes porque são boas.

20150826 - Entrevista - Keep Razors Sharp

MDX – O que vocês esperam e o que podem os fãs esperar deste concerto?

BB – Tudo e nada. Eu acho que acima de tudo o que podem esperar de uma banda como a nossa e é o que nós esperamos que aconteça é: que nós nos divirtamos e principalmente o público se divirta. É o que tem de acontecer, as pessoas partilharem um bom momento connosco, existir a comunhão entre a banda e entre a banda e o público.

Rai – Em relação às 4 pessoas tudo. Há muitas coisas que não estão ao nosso alcance mas uma das máximas que nós temos é dar tudo independentemente das adversidades, do que aconteça. Quando estamos em palco acho que todos nós odiamos a sensação de acabar um concerto com um sabor amargo na boca, é algo que não é fixe, por mim falo. Portanto, cada vez que entro em palco (e sinto o mesmo com eles) a ideia é dar o melhor concerto possível e imaginário. Podem esperar tudo de nós. O Rock é uma coisa que não tem de ser tocada tecnicamente perfeita, isso é jazz para mim. Num concerto de rock se houver alguém que dá um prego mas se estiver a transpirar e a sorrir não interessa o prego. O rock não pode ser tocado de uma maneira muito certinha. Normalmente o rock é povoado de freaks, pessoal que não é bom da cabeça, os inadaptados.

MDX – O que é que os Keep Razor Sharp tencionam fazer no futuro?

BB – Este mês de setembro vamos tocar todos os fins-de-semana praticamente. Esta banda surgiu da vontade de tocarmos juntos e da vontade de fazer coisas que não tínhamos feito nos outros projetos e por isso vamos continuar a fazer isso.

Rai – Provavelmente vão receber notícias nossas muito mais cedo do que aquilo que estão à espera em relação a próximas edições. Vai ser uma carta fora do baralho, algo inesperado. O que vamos fazer vai ser algo de diferente. Se repares todas as bandas que tentaram replicar a fórmula de discos anteriores, falharam. Só há que arriscar. Isto para dizer que a nossa ideia não é agarrar em Keep Razors Sharp e meter numa prateleira enquanto as bandas que nós temos em paralelo andam a promover os discos novos que ai vêm. Isto pode parecer arrogante, mas é verdade, é muito fácil para nós criar música quando estamos os 4 numa sala de ensaios, há sempre em cada ensaio algo que é gravado e passados 20 ou 30 ensaios tu vais ver e já tens material para fazer um disco, agora vai depender é do caminho por onde queres levar esse disco.

Os Keep Razor Sharp tocam amanhã, dia 5 de Setembro, no palco #IMF do Indie Music Fest pelas 23h30 e certamente que vão brindar o público com um concerto que dificilmente se esquece.

 

Mais informações sobre os Keep Razors Sharp em:
Facebook – https://www.facebook.com/KeepRazorsSharp?fref=ts
Website – http://afirma.pt/pt/keep-razors-sharp/

Entrevista – Eliana Berto
Fotografia – Luis Sousa