“Está doendo demais a falta que você faz” – assim começou o concerto no B.Leza. Palavras mais que adequadas. Estar hora e meia à espera doeu e moeu. É dor que não faz chorar e também não foi difícil de consolar. Um afago, um aconchego e sobretudo aquela presença que ao primeiro minuto já nos é tão familiar – Dona Onete. Sentada numa cadeira, pequenina, pequenina com um vestido estampado e lenço enrolado na cabeça. Seria a nossa avó, uma avó, o ser que é um e todos maior que qualquer Deus. A avó que nos espera no limoeiro interrompe os afazeres domésticos para uma patacoada, um sorriso consolado. A Dona Onete nada se pode reprovar porque o que ela dá é muito. Dar de uma forma sincera, desarmante. “Não tenho mais músicas para tocar minha gente”, “Voltarei para o ano com novas músicas que as deste cd já acabaram”. Quem poderia traduzir o tão portuguesíssimo “Fazemos o que podemos” de modo tão peculiar? Só ela.

Dona Onete abraça, convoca para dança livre e ao rodopio sem bebida na mão como bengala. Passo leve e desmedido, uma e outra vez e a sala toda em roda livre. O espírito do FMM – Sines poloniza as margens do Tejo. Dona Onete abraça também a mestiçagem. Como Ruy Duarte de Carvalho em Desmedida – Crónicas do Brasil é história, não a contada nos livros e que tem Portugal como epicentro, mas a que faz do nosso país um vértice num polígono maior com ligações entre Brasil – África – Europa e que tem a sua expressão máxima na mestiçagem. Mistura de sons e de raças, o que Dona Onete classifica de “morenos europeus”. Assim, com este carinho quem resiste a mais um Carimbó Chamegado?

Lá vai ela embalando. Ela sabe o segredo – sedução. Quem resiste ao Poder da Sedução? É tudo convite, nada imposto. Convite para um encosto, para um aperto um bocadinho mais forte em qualquer Kananga do Japão. Quem não gosta de Samba? Pergunta na terceira música. O mote está dado e temas como Jamburana aumentam a velocidade do passo e “A boca fica muito louca, com o sabor do jambu”. Mas também há momentos para temas mais sérios e para a revindicação da herança africana, do lamento negro à cultura dos Orixás, os que trabalharam na apanha da cana para fazer cachaça, evocação da sua terra natal o Pará, nesse país semi – continente que é o Brasil. Dona Onete a senhora de sete décadas, antiga professora de História, Secretária Estadual da Cultura, fundadora de grupos de música e de dança. Multifacetada como a sua música.

E a saideira. Há sempre tempo para mais uma. Alguém já se deu ao trabalho de contabilizar quantas saideiras se dizem numa noite? Há sempre mais uma cerveja para beber e uma dança para dançar. No final, no finalzinho mesmo, porque Dona Onete já não podia mais, uma subida ao palco para abraço e fotografia e ainda beijo na bochecha que não é de despedida, mas de agradecimento e desejo – Volte sempre Dona Onete que esta é sua casa também!

Texto – João Castro
Fotografia – Rita Justino