No passado dia 20 de Abril, a sala Manoel de Oliveira do Cinema S. Jorge em Lisboa estava composta para receber Scott Matthew e os seus músicos. Ainda muito antes de as portas abrirem, já iam ordeiramente colocando-se em duas filas, um número significativo de fãs do músico australiano.

Entrámos sem pressas e sem pressas estava também este quarteto. Um palco imenso para 4 cadeiras, vários instrumentos e um ramo de cravos (vermelhos também) preso no pé do microfone.

Já passava da hora quando o quarteto entrou em palco, sem grande alarido, sem aplausos, sem acenos de mão.

O piano tenta dar o arranque, mas damos conta que se passa qualquer coisa com o som. E nessa altura Scott Matthew dá-nos as boas noites no meio de um sorriso atrapalhado que provoca um riso generalizado no público! Finalmente o piano solta a primeira nota de “Effigy” e era o começo de quase 2 horas nas profundezas do oceano das almas.

Um agradecimento sentido, seguido da adoração a Lisboa e a certeza de que “o seu último álbum tem Lisboa dentro dele” (Scott Matthew deu um concerto em Lisboa no Misty Fest em 2013). Apresentou a canção seguinte, “Ode”, e diz-nos que é sobre o seu avô que era “a lovely fellow”. Com as mãos desocupadas, canta com os dedos longos e finos. Num ritmo acelerado para a tranquilidade da melodia, como se quisesse transmitir todo o turbilhão interior que sente… com as mãos.

“Skyline”, “Here we go again”, com projecções de flores pontiagudas, nas paredes e no tecto. Um elogio da remodelação da sala onde toca, “é um bonito sítio para tocar”.

“The Wonder of Falling in Love” e “Habit” tocados e cantados no meio de uma estrela que rodopia bem no centro da sala. O recorrente “heartbroken” do Scott Matthew, e mais um tema que escreveu para alguém que deambulou na sua vida, e que desapareceu. O bom destas situações diz, é “que deixam estas canções”. Com um sorriso diz-nos que se sente livre e a cantar melhor desde que passou a fronteira! Acrescenta que provavelmente é do vinho (o tinto que sai de uma garrafa e desliza com alguma frequência para um copo, de plástico)!

A música que segue, é do seu magnifico álbum de covers (“Unlearned”). Pede ao público para fazer o coro, pois tem a certeza que todos irão conhecer a música, é “ I Wanna Dance With Somebody” de Whitney Houston.

Quando termina, agradece o coro do público e diz que a próxima música “era demasiado novo”, “Anarchy in the U.K.” dos Sex Pistols. Partilha com o público que não lhe cederam os direitos de e por isso não pôde entrar no álbum (“Unlearned”). A isto responde: “ So fuck them!” porque continuará a tocá-la ao vivo. O público reage ao tema e tenta acompanhar o refrão, e Scott Matthew sorri!

“German” não sai à primeira, e Scott aproveita para dizer que a distância entre ele e nós (público) o põe nervoso. As mãos soltam-se, e numa dança de dedos exorciza a dor. “Qual é o melhor trabalho se pode ter no mundo, em que podemos gritar (risos)? Sou a pessoa mais sortuda do mundo” (mais um golo de tinto português)!

Tosse um pouco no início da música, e diz que é do vinho. Mas logo de seguida diz que talvez seja dos cigarros que fumou. As últimas sílabas de cada palavra são deliciosamente pronunciadas, como quem quer deixar um eco permanente gravado na mente.

“Palace of Tears”, canção que foi escrita em Berlim, num palácio-museu triste, frio e cinzento. Acendem as luzes durante a canção, e ela torna-se menos fria.

Mais uma desilusão amorosa de Scott, e desta vez ele pensou: “ok, mais um coração partido, mais um álbum”! Riso de cumplicidade, generalizado na sala. Apresenta o homem do violoncelo, Sam Taylor!

Toca mais um cover, “Everythig Happens to me “, na simplicidade da guitarra acústica e na melodiosa voz, acrescentando que adora Chet Baker.

A guitarra acústica continua no tema “Every Travelled Road”, e inicia os agradecimentos, que vai dividindo durante as próximas músicas e até ao final do concerto.

“Bittersweet”, uma canção meio parva (silly) por ser uma canção feliz. “Fiz esta canção num regresso à Austrália”. Todos os músicos assobiam no refrão, e num encolher de ombros Scott Matthew enche-se de alegria, qual criança envergonhada com tamanha felicidade! Mais um magnifico cover, “Darklands” de Jesus and Mary Chain, onde o público tenta acompanhar no refrão, mas com sérias dificuldades (digo vos eu)! Agradecimentos ao público e falsa retirada do palco.

Aguardamos o regresso do quarteto e nessa volta, Scott Matthew agradece ao João (o engenheiro de som) e à promotora Uguru! Diz que a próxima música é a que mais gosta de cantar, “Annies´s Song” de John Denver. Scott Matthew senta-se virado para o guitarrista (David), que com a guitarra acústica acompanha o momento. O momento apoteótico da noite! No final, entre as minhas lágrimas na plateia e o abraço entre os dois músicos, foi um levitar d’alma que não consigo adjectivar… Em “Abandoned” volta o piano e o violoncelo, ficando o quarteto completo. Numa voz arrastada mas acentuada e num puxar de agudos, Scott já deixa o copo e continua no tinto pela garrafa. Diz que “Não se sente abandonado”, e garante que irá beber um gin tónico num copo de vidro no bar a seguir ao concerto, acabando por nos fazer um convite para o acompanharmos (!) Para terminar (oh…), a sublime interpretação do tema “In To My Arms” de Nick Cave onde as lágrimas me caíram pela segunda vez, e o público se entregou num refrão afinado e grave. Já depois da retirada do quarteto, das luzes subirem, com o público numa ovação estridente, e fora do alinhamento, “In the End”! Scott e a guitarra acústica despedem-se com um “thank you” com a mão direita pousada no peito. E os cravos (vermelhos também) lá ficaram, no pé do microfone.

Momentos destes são adrenalina para a alma. God bless you Scott!

Texto – Carla Sancho
Fotografia – Rita Justino
Promotor – UGURU