Vera Marmelo, 10 anos de música atrás da lente

Vera Marmelo é um nome que toda a gente que tem alguma ligação com música ou fotografia conhece. O talento e a dedicação que carrega são notórios e as energias que emana também. Para comemorar os 10 anos de fotografia houve uma exposição e o lançamento do primeiro duma série que teria 3 posters com a compilação de 3 espaços temporais. Não quisemos deixar passar estes 10 anos de concertos e músicos e toda a essência que a Vera nos tem trazido e fomos conversar com ela no seu habitat em Lisboa – A Galeria Zé dos Bois.

20170604 - Entrevista - Vera Marmelo @ ZDB

“Tirei férias para tratar disto dos posters e, durante alguns dias, passei o dia a olhar para arquivo, a ver fotos, a percorrer o blogue. No início do ano comecei a sentir aquela ressaca de tudo o que se passou e começam a aparecer muitas coisas que queres fazer e sentir e vi que estava verdadeiramente cansada. Houve um dia que fui ter com o pessoal da desisto e disse-lhes que achava que não ia continuar a fazer as publicações, vou reunir tudo no site para aparecerem os 2 separadores que faltam mas já não tenho pica para fazer mais papel e eles convenceram-me a não desistir, possivelmente a espaçar mais isto do tempo. Vou continuar a rever as fotografias dos anos todos, vamos mudar o formato da publicação, vamos simplificá-lo e, possivelmente, não vai ser uma edição de 100.”

MDX – Porquê fotografar músicos?

Vera – Aconteceu. Nunca tive aquela cena de “gosto muito de fotografar e os meus pais têm cameras em casa e tal” nada disso! O meu pai, por causa do trabalho, tinha comprado uma daquelas máquinas digitais, caríssimas na altura, e eu andava com aquilo muitas vezes à noite e no Barreiro começaram a acontecer muitos concertos. Comecei a fotografar concertos no El Matador, um matadouro antigo que existia no Barreiro e onde aconteciam muitos ensaios e concertos. Comecei a fotografar um pouco no intuito de aproximação, para ter uma razão para falar com as pessoas que organizavam os concertos. Então comecei a fotografar as bandas, ia para garagens, aos concertos que iam acontecendo. Mas sim, foi um bocado à toa.

“O facto de eu viver numa cidade onde existe o Outfest e o Barreiro Rock’s e depois ter-me cruzado com o Sérgio e começar a ligar-me à ZDB teve muita influência. Basicamente começas a ir aos sítios onde os teus amigos estão. É normal, também, que eu me mantenha há 10 anos a fazer isto, porque eu quando venho à ZDB não venho só ver um concerto, venho ter com o Sérgio, estou um pouco com ele, janto com eles e vou ficando… por acréscimo tenho estas coisas como o Thurston Moore: esse retrato aconteceu porque o Sérgio pediu.”

MDX – O que é que a lente te mostra?

Vera – Na verdade, hoje em dia, é mais o que é que a lente me traz. É um passe de entrada livre para tudo o que tu queiras: para a vida das pessoas, para concertos, para as coisas que te interessam, para estabeleceres relações mais próximas com as pessoas que se cruzam contigo e para te fazerem convites que não lembram a ninguém mas que te trazem pica. Acho a realidade e a sensação que tenho cada vez que meto a camera à frente da cara é que as coisas são mais bonitas! Mesmo com retractos, tu tens sempre aquela sensação de transformar aquela pessoa naquilo que tu achas mais interessante, é meio um embelezador da vida. Depois chegas a casa e alteras um bocado as coisas, trabalhas um pouco aquilo e de repente parece que o mundo é outra coisa e que é muito mais fixe do que o que tu viste ali. Eu acho que há 2 coisas aqui: traz-me a chave para entrar em muitos sítios fixes e ter contacto com muita gente.

20170604 - Entrevista - Vera Marmelo @ ZDB

MDX – Se algum dia pudesses viver disto monetariamente, viverias? Ou continuava um hobbie?

Vera – Depende. Se sentisse que não tinha de estar constantemente a explicar às pessoas o tipo de trabalho que faço e não ter estar constantemente a lidar com situações estranhas de me pedirem uma coisa e já escalonaram isso para outra coisa… A situação mais perfeita seria ganhar o euro milhões e não ter de me preocupar em fazer dinheiro e ai poder fazer os trabalhos pro bono que quisesse e dizer sim e não ao que me apetecesse. Uma coisa é verdade, se eu dependesse monetariamente disto eu tinha de lutar muito mais, se calhar tornava-me numa fotógrafa menos preguiçosa do que o que sou mas de certeza que não ia estar a fotografar só as coisas de que gosto e possivelmente mais de 70% das coisas que fotografasse nem iam ser mostradas, enquanto que hoje em dia tudo o que eu fotografo mostro. Acho que isto é um luxo… estares confortável com tudo o que fazes.

MDX – Quem é que te deu mais prazer fotografar?

Vera – Tenho muitas amigas que adoro fotografar porque se dão muito à cena no sentido em que confiam em mim e são muito interessantes em tudo e isso entusiasma-me. Eu gosto muito de fotografar aqui na ZDB nos ensaios, mais por causa da luz que vem da janela mas também pela energia de pensar que estou sempre no mesmo sítio mas que estou a conseguir fazer melhor e coisas diferentes. Eu olho para o que fazia inicialmente em várias salas e para o que estou a fazer agora e não tem nada a ver. Divirto-me muito a fotografar o Barreiro Rock’s e pessoas… com a Angel Olsen é sempre muito divertido porque ela é super palhacinha. Foi muito especial fotografar o Devendra quer o concerto quer os retratos porque o adoro desde que sou miúda, faz parte da minha santíssima trindade: por ordem de aparecimento na minha vida – D’Angello, Deftones e Devendra. Acabo por me divertir muito nos festivais porque nunca vou para o pitt quando são aqueles festivais grandes e gosto de estar a circular e ir encontrando pessoas e amigos que são músicos. No ano passado fui ao Amplifest e diverti-me muito a fotografar lá porque não estava a fazer nada para ninguém, ninguém me conhecia ali e quando entras nessa liberdade de não teres de dar nada a ninguém acabas por te divertir muito.

MDX – Há alguém que queiras fotografar muito?

Vera – Não. Não tenho esses fetiches. Vou sempre lembrar-me de nomes muito grandes e são pessoas que já foram fotografadas tantas vezes que não tem tanta piada. Mas talvez o Nick Cave.

MDX – Qual é o sentimento de ver o teu trabalho espalhado pelo mundo?

Vera – A capa do disco novo do Thurston foi muito fora porque esta fotografia é uma fotografia que a namorada dele gosta muito, então eles usaram para fazer a promoção de um dos discos e para o último disco eles já queriam ter usado a fotografia como capa, mas a editora não aceitou e usaram outra. Depois enviou-me um email a falar da hipótese novamente e eu disse que sim mas nunca mais me disseram nada e foi um amigo meu que me enviou pelo Facebook a página com o disco novo e as minhas fotos todas lá. Eu estava no meu trabalho e levantei-me aos saltos, depois partilhei aquilo no Facebook de uma maneira muito inocente e aquilo teve imenso impacto e eu fiquei meio estranha, como se fizesse anos, depois chega o fim do dia e tu pensas que afinal é só uma fotografia que tirei há 4 anos. Foi apenas uma cena de momento, um orgulho… guardo lá em casa e pronto, é um momento de orgulho silencioso não é algo que sintas e em que penses diariamente. Estas coisas são muito circunstanciais. É bom sim, mas no final do dia quem celebra é o músico e não tu! Acho que é melhor desvalorizar se não começas a ficar meio estúpido e não vale a pena porque depois o teu dia-a-dia não tem nada a ver com estar a fotografar este tipo de pessoas.

MDX – Olhas para trás nestes 10 anos e qual é a primeira coisa que sentes?

Vera – Que tenho visto muita coisa. Tenho visto muita música e que cheguei a um ponto em que já não procuro, que as coisas vêm ter contigo e que, possivelmente, todas as pessoas que são muito importantes na minha vida ou grande parte delas são pessoas que eu conheci por causa disto. Há-de chegar o dia em que não vou ter força ou paciência para andar sempre em concertos e dum lado para o outro mas, a haver, anseio pelo dia em que eu consiga ir a um concerto e não tenha vontade de fotografar porque eu não vejo concertos! Acho que o último concerto que eu vi a sério foi um do Norberto Lobo que o Sérgio organizou na Igreja St. George em que eu fotografei o ensaio e depois pensei que não queria fotografar durante o concerto pois ia fazer barulho, então fiquei sentada o tempo todo a ver. Guardo muitas pessoas e guardo, acima de tudo, uma capacidade de comunicar e de me relacionar com pessoas que foi altamente ampliada e, cada vez mais, sinto que era muito menos medrosa quando era miúda, tinha muito mais confiança nas coisas que fazia, parece que agora tens de estar sempre a criar, a produzir. Acho que estamos todos a cair nesta angústia de ter de estar sempre a fazer coisas. Temos de nos estar sempre a resguardar, a tentar fazer pelas razões certas, não encarar tudo como se fosse um projecto!

“É fixe teres sempre uma história para contar.”

20170604 - Entrevista - Vera Marmelo @ ZDB

MDX – Conseguiste pôr todas as pessoas que querias nestas publicações?

Vera – Sim! Porque eu estou a fazer isto para mim! Se quiser meter 36 fotografias meto 36, se quiser meter 2 porque me chateei naquele ano só meto 2 e acima de tudo há uma coisa que é: eu não estou nada preocupada com prestar homenagens! Estou mais preocupada com as minhas relações, as coisas que foram realmente muito importantes ou de quem eu gosto muito e a quem estou ligada, acho que ninguém se vai sentir minimamente insultado por aparecer ou por não aparecer, portanto essa questão não se levanta.

Que venham mais 100 Vera!

Entrevista – Eliana Berto
Fotografia – Luis Sousa