Oathbreaker – Mitologia, Gritos e Afecto

Entramos no Musicbox e o panorama diferia do habitual. A policromia não era palavra de ordem: o negro era senhor, numa noite em que muito se ansiava por WIFE, mas particularmente por Rheia, o novo disco dos aclamados Oathbreaker.

A noite ainda principiava quando o Irlandês James Kelly, conhecido nestas andanças por WIFE, se apresenta a uma sala bastante composta. Não pede licença para nos arremessar com a sua lúgubre música eletrónica, intercalada tanto pela sua adulterada voz, como por um preciso jogo de tempo e silêncio, que cativou os melómanos presentes desde o início.

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Obrigado por não falarem tanto como no concerto de ontem, profere o antigo membro de Altar of Plague, numa das poucas pausas que faz. Percorrendo Standard Nature, o seu mais recente trabalho, WIFE mostrou mestria ao transformar o Musicbox numa fábrica sombria: as ritmadas sonoridades industriais e lascivas coabitavam harmonicamente com um vastíssimo recurso de sons naturais – como recortes de água ou de árvores agitadas pelo vento – que oferecem ainda mais sentido à denominação do seu último álbum.

Beneficiado pelas ótimas condições acústicas da sala, Kelly conclui uma curta e directa atuação sob muitos aplausos de uma plateia que almejava por Oathbreaker, mas que se mostrou notoriamente agradada pelo espetáculo oferecido pelo Irlandês.

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Ainda Oathbreaker não tinham subido ao palco e já se percebia um genuíno e crescente interesse pelos Belgas. A recente presença no Amplifest amplificou os seguidores da banda, o que é visível pelo número de pessoas que vão entrando na sala. As conversas sobre Rheia, o último álbum, multiplicam-se. A capacidade vocal de Tanghe parece ser um denominador comum.

Os quatros elementos aparecem no palco, mas Caro Tanghe parece transportar consigo uma espécie de magnetismo que leva a que a maioria das retinas se fixem na sua presença. Abrindo o concerto com 10:56, depressa partimos de uma voz melódica para uma convenção de gritos que ninguém consegue escapar. Somos desarmados pela dualidade entre a força e a vulnerabilidade, entre a estrutura emocional e o desespero com que esta voz nos recebe.

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Não é necessário demasiado tempo para percebermos a diferença para os discos anteriores, e isto acontece porque os Oathbreaker, escondidos atrás do cabelo de Tanghe, ousam prosseguir caminhos pouco ou nada conhecidos. Mais relevante que estarem menos agressivos, menos furiosos que outrora, é estimulante o facto de os Belgas recusarem seguir as pegadas de outras bandas. Estão por sua conta e risco, o que se por um lado eleva o interesse intrínseco deste novo álbum, por outro dificulta a caracterização sonora da banda. Atravessam, e cruzam, vários géneros e estilos, misturando Black Metal com Punk, Shoegaze com Post-Hardcore.

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Despedem-se de Lisboa, mas ficamos com a certeza que em breve estarão de volta, e nós – assim como todos os presentes – certamente lá estaremos para assistir.

Texto – Tiago Pinho
Fotografia – Vera Marmelo / FestMag
Promotor – Amplificasom