Xutos & Pontapés, a banda que move gerações

Numa noite amena de Dezembro, mais precisamente na noite do dia 18, viam-se filas gigantes à porta do Campo Pequeno. Poucos espaços vazios havia na sala. Por entre o público, via-se uma variedade de idades, como já é normal, que ia dos 8 aos 80 e em todos os rostos se via a mesma vontade e entusiasmo para ver os nossos Xutos & Pontapés.

 

Com uma ideia que surgiu de um convite para tocar no dia dos namorados, os Xutos decidem fazer uma pequena tournée de concertos acústicos onde revisitam o álbum Ao Vivo na Antena 3 e algumas faixas antigas, outras há muito não tocadas, e à qual deram o nome de “Se Me Amas”, single com 20 anos que faz parte do álbum ao vivo 1º de Agosto no Rock Rendez-Vous. Para o concerto convidaram Nuno Espirito Santo para tocar baixo e o João Cabeleira manteve-se na guitarra eléctrica.

Como que pelo som de uma marcha entram um a um em palco os grandes e resistentes do rock português. Após a “Chuva Dissolvente”, o Tim saúda as pessoas como habitualmente com o seu “Boa noite, aqui Xutos & Pontapés!” e todos nos sentimos em casa.

O concerto contou com 2h30 de espectáculo. Ao todo, foram tocadas 22 músicas com direito a um primeiro encore de mais 2 e a um segundo com mais uma. Pelo caminho, passámos por cerca de 10 álbuns da carreira destes senhores.

Pela visão de um seguidor,ou “Andarilho”, de Xutos, o que aconteceu foi algo emocionante até à 19ª música. Faixas como “Nós Dois”, “Quarto de Candy”, “Se Não Tens Abrigo”, “Pequenina”, “Conta-me Histórias”, “ Se Me Amas”, “Doçuras”, “Nesta Cidade”, “A Minha Aventura Homossexual Com O General Custer” e “Pensão” surtiram um efeito imediato de um regresso ao passado coberto de histórias, choros, alegrias, bipolarismos raivosos, harmonia e pelos em pé. Estas faixas, muito pouco tocadas, ou até no meu caso, um par delas escutadas pela primeira vez ao vivo, trouxeram uma lufada de ar fresco e um renascimento dos Xutos & Pontapés. A adolescência voltou e, a euforia e ansia de assistir ao concerto como se fosse o primeiro apoderou-se dos corações. Vozes em coro e a gritar, por vezes de modo tremido, mais numas músicas que noutras, eram espelho da felicidade que se sentia. Para um fã esporádico, o concerto só começou a sério à 17ª música e a partir dai foi sempre a subir.

Ao fim da música que dá nome à tournée, 11º a ser tocada, Tim, Zé Pedro, João Cabeleira, Gui, Kalú e Nuno fazem um intervalo. Embora tenham em sua posse uma energia ainda bem viva, os miúdos, que já não têm 20 anos, precisam de recuperar o fôlego para continuar um concerto desta duração. Ao regresso, esperava-os um sofá vermelho em forma de mãos onde, inicialmente, se sentou o Tim com o baixo e o João Cabeleira com a guitarra para tocarem a suave e terna “Doçuras”. A música a seguir já contou com os 5 elementos a celebrar a amizade e a tocar a “Nesta Cidade”, faixa emblemática e intemporal que tanto mexe com todos. No final voltam aos seus lugares, já sem o sofá vermelho.

Voltando às visões, falta ainda falar da visão do fã esporádico. Aquele que fica calado quando não conhece a música porque é mais recente ou mais antiga. Aquele que chega cá fora e diz que o concerto só foi bom a partir da 2ª parte, como ouvi mal sai da sala. Aquele que pensa que Xutos é sinónimo de pouco mais de meia dúzia de músicas. Para esse fã, a euforia e explosão de alegria começaram já a mais de meio do concerto e gritava com os pulmões cheios “Maria”, terminando aos saltos.

Como fã de Xutos que sempre fui e seguidora, confesso que me continua a desiludir a forma como, há pelo menos uma década, há músicas que já não saem dos alinhamentos. Apesar de existirem pessoas que digam e pensem o contrário, esses não são os Xutos. Os Xutos são muito mais que isso e têm tanto para dar. O que podia ser um concerto perfeito, porque por vezes a perfeição sensorial existe, acabou por ter um sentimento de completude abalado pelo final.

Apesar de tudo, sabe sempre bem reviver o passado e a força dos Xutos & Pontapés, com o toque mágico das cordas acústicas que embelezam e criam uma envolvência maior ao redor das músicas. Foi bom ouvir o Kalú nas teclas com “Um Deus” e “Teimosia” e foi bom ver que há energia e vontade para muito mais.

Até para o ano, queridos Xutos & Pontapés.

Texto – Eliana Berto
Fotografia – Luis Sousa