9º Aniversário Musicbox Dia 2, pela voz espanta-se a mágoa

Após um primeiro round dominado pela ortodoxia das guitarras, a segunda parte do aniversário do Musicbox tomou o rumo lógico de apimentar as coisas e, prevendo uma sempre longa noite de sexta-feira, deu um cariz mais electrónico às festividades. Às actuações de Vaarwell e Natasha Kmeto, seguir-se-iam nomes como os acarinhados Acid Arab e a joia nacional que é DJ Marfox para manter os níveis de energia em altas.

Mantendo o seu condão em apostar nos valores emergentes da música, nacional e não só, o Musicbox escolheu os Vaarwell para abrir esta segunda noite. O trio, composto por Margarida Falcão, Ricardo Negy e Luís Monteiro (apoiados por Diogo Abreu na bateria), impressionou pela desenvoltura com que apresentou os temas do EP Love and Forgiveness, especialmente tendo em conta que ainda nem um ano têm enquanto conjunto.

Dona de um indie pop igualmente solarengo e melancólico, como um fim de tarde invernal, a banda lisboeta deposita em Ricardo o binómio de trazer a luz pela guitarra e a penumbra pelo pad com que pontua as canções com samples e texturas downbeat e em Luís a tarefa de se assumir como espinha dorsal com o seu baixo. É, contudo, em Margarida que se centram as atenções. Desconfortável na sua relação com o público, transmuta-se na confiança com que utiliza a sua voz pristina para dotar temas como Perfecly Fine e Hope dessa mágoa ambivalente que envolve a banda. Desde que evitem algumas colagens desnecessárias (a cover de Hotline Bling foi um aparte curioso mas os samples de Kendrick Lamar foram totalmente desnecessários em Branches), os dados estão lançados para que façam coisas muito boas no futuro.

Quando  Natasha Kmeto subiu ao palco já a noite crescia e os bares do Cais muito provavelmente se começavam a encher. A cantora norte-americana, estreante em Portugal, teve nesse timing os seus maiores amigo e inimigo. Isto porque a sua combinação sensual de R&B e House convidou cada vez mais pessoas, muitas a entrar na sala àquela hora, a fazer do Musicbox uma pista de dança mas isso também levou a que muitos não encarassem a música da artista senão como um mero justificativo para dançar. É uma pena, porque o que Natasha fez merecia mais atenção. A cantora norte-americana é uma artista all-in-one: escreve, produz e canta o seu próprio material. Esse total controlo criativo é palpável na forma como soa a sua música, uma conexão simbiótica entre batidas lânguidas e uma voz poderosa e versátil, capaz de atingir os cumes mais altos ou descer até às profundezas das suas próprias inseguranças.

A braços com o seu coming-out homossexual, a artista tem usado essa mudança marcante para alimentar a sua música. Contudo, não devemos olhar para tal força motriz como uma curiosidade ou algo exclusivamente centrado no mundo queer, já que o que Natasha mostrou ao longo de uma hora foram histórias universais de amor e desamor. A confusão frustrada de I Thought You Had a Boyfriend e a sua cascata de sintetizadores, a declaração de vulnerabilidade de Inevitable num beat mais minimal ou a vontade febril de se entregar a alguém na noite, não obstante as dores de coração que ainda a afectam, na mais festiva That One Thing descrevem situações análogas à vida de quem já arriscou uma relação amorosa. Mantendo uma sonoridade espaçosa, assente em baixos bem graves e batidas espartanas, Natasha deixa-se ocasionalmente levar em passagens energéticas como no fim de Take Out. Com os níveis de confiança cada vez mais elevados em relação a um público já rendido, a artista estreou ainda um tema novo já no fim do concerto e deu garantias de um retorno futuro a este cantinho da Europa, cá esperaremos.

Texto – António Moura dos Santos
Fotografia – Ana Pereira

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